Paulo Azevedo
Sexta, 27 Março 2009 03:39
 
Paulo Azevedo saltou para o pequeno ecrã através da sua força de coragem e do impulso de pessoas ligadas à SIC que queriam concretizar o seu sonho de ser actor. Numa entrevista sobre a vida pessoal, profissional, e tanto mais - baseada no livro "Paulo Azevedo - Uma Vida Normal" - o actor, muito divertido, respondeu às nossas perguntas e às dos fãs. Agradecemos, antes de mais, ao Paulo, pela sua grande disponibilidade para a realização da entrevista.

1 - A "Grande Reportagem" que teve-te como protagonista, foi a principal causa para teres realizado os teus sonhos? Ou achas que eras capaz de concretizar os teus sonhos com a tua grande força com que vences a vida?

Acho que a “Grande Reportagem” foi uma rampa de lançamento para me mostrar ao país. Foi uma grande ajuda, sem dúvida, no entanto antes da “Grande Reportagem” já estava a ter formação no curso de actores com o Tozé Martinho. Acho que a reportagem e a minha grande força foram dois grandes aliados.

2 - Em "Paulo Azevedo - Uma Vida Normal", antes do prefácio de Nuno Santos, dedicas a obra "A todos aqueles que sempre acreditaram em mim e aos que nunca deixaram de sonhar". Em suma, quem são essas pessoas?


Essas pessoas são todas aquelas que me incentivaram e nunca me deixaram desistir, que acreditaram sempre, que apesar de ser diferente, não era minimamente inferior.

3 – Nasceste no dia 29 de Outubro de 1981 na Maternidade Bissaya Barreto, em Coimbra. O teu nascimento provocou um grande conflito de emoções na tua família, até porque conforme é citado no livro, “Foi o drama, a tragédia, o horror…”. As reacções foram várias, mas acabaste por conquistar com um sorriso o teu avô, e entretanto, a restante família. O teu nascimento foi tão comentado, que até tiveste a honra de ser tema de uma manchete no Diário de Coimbra. No teu ponto de vista, a reacção da tua terra perante um nascimento de um menino sem braços e pernas, foi normal, ou exagerada?


Acredito que tenha sido exagerada, até porque é um meio pequeno onde pouco ou nada acontece. Mas não queria nascer noutro sítio, acreditem.

4 - O teu caso nada tem a ver com o sistema genético, e por isso podes ter filhos absolutamente saudáveis. No entanto, o teu desejo de ser pai e a tua infância levam-te a afirmar que "Se um dia tiver um filho com problemas, não o abandonarei. A mim não me abandonaram". O teu desejo de ser pai, realizar-se-à num futuro próximo, ou quando fores mais adulto?

Um filho é uma grande responsabilidade, só irei pensar nisso quando tiver a minha vida totalmente estável, mas quero muito ser pai um dia.

5 - A presença de animais na tua vida, como a Chorona; de brinquedos, como a Caca e os Playmobiles; e de verdadeiros amigos, como o Pedro (Sapo), o Laurent (Rã), o Fifas, o Ramalho e o Rui, foi importante para o teu crescimento? Cada um teve a sua função na tua vida?


Claro que sim, os brinquedos foram tão importantes como são para qualquer um (não se esqueçam que sou igual a qualquer um… vá, parecido [risos]). Os amigos, a família, colegas e todas as pessoas que vencem o preconceito são os heróis verdadeiros da vida do Paulo Azevedo.

6 - A tua adaptação às próteses foi complicada. Passaste pela fisioterapia, piscina, ortopedia, e até foste a razão de uma pesquisa realizada por parte dos fisioterapeutas e ortopedistas. E, acabaste mesmo por utilizar próteses, até que deste o primeiro passo. Como foi a adaptação?

A adaptação não foi nada fácil, provocava muitas dores e tudo mais, mas a força de poder andar sem ser com “rodas”, e ter uma independência muito maior, falou mais alto. Ainda bem, valeu a pena tanto sofrimento.

7 - A adaptação às tuas primeiras pernas foi positiva, no entanto, às tuas primeiras mãos, nem por isso. O que realmente te incomodava?

Faço tudo assim, escrevo, como, conduzo, tudo, para quê umas próteses? Estética? Não obrigado, eu sou assim e, quem me quer aceitar, aceita, quem não quer que ponha de lado (risos).

8 - As próteses proporcionaram-te alguns momentos engraçados e embaraçosos. Partilha connosco um momento que te tenha ficado especialmente marcado.

São vários, desde as quedas de moto em que todos pensavam que me tinha partido todo e estava na maior, desde o queixar-me quando me pisavam, ou dos pés frios, e até pôr as próteses atrás da porta para assustar alguém.

9 - Dedicas um capítulo ao pior dia da tua vida. Que dia foi esse?

Foi o dia em que o meu Avô teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral), e deixou de ser o pilar da minha vida. Tive que crescer depressa demais.

10 - O desporto sempre foi importante para ti, desde o futebol ao bodyboard. Cada um teve a sua importância, sendo que até participaste em torneios de ambas as modalidades. No entanto, tiveste de desistir de um deles. Porquê?

Desisti do futebol, porque não tenho pernas, é claro. Do bodyboard pensei em desistir quando ia morrendo afogado no mar da Nazaré, praia do norte. Mas neste momento voltei a praticar, e sinto-me muito bem.

11 - Foram raros os casos em que foste alvo de preconceito, e esse preconceito era muitas vezes transformado em respeito. Até houve um exemplo bem válido disso, em que ias ser vítima de assalto.

Sim. A pessoa que me ia assaltar, quando viu como eu era, pediu imediatamente desculpa, e ainda foi mais longe, disse mesmo para não me preocupar que ninguém me faria mal.

12 - As barreiras arquitectónicas são o principal obstáculo para pessoas com deficiência. Até que ponto, essas barreiras te impedem de ter uma vida normal?

Em quase nada, só se uma escada não tiver corrimão ou uma parede para me encostar, mas uma das minhas lutas é acabar ou reduzir as barreiras arquitectónicas do país.

13 - Foi na escola primária que descobriste o bichinho da representação. Começaste por representar o Menino Jesus, depois foste São José, João Ratão... até que hoje és Raimundo. Como surgiu o convite, e quem é o Raimundo?

Foi normal. Primeiro fiz casting para uma outra personagem, e depois para o Raimundo, até que tive a sorte de ser aceite.

O Raimundo é ou vai ser o herói de “Podia Acabar o Mundo”, é um advogado, um lutador, um apaixonado pela vida, uma força da natureza, ama de verdade a Inês (Maria Botelho Moniz), ela e a família são a razão de tudo na sua vida, tem como luta o medicamento P5. A história que o caracteriza é “David contra Golias”, de um lado Raimundo Simões do outro Eduardo Morais (Virgílio Castelo)

14 – Tens novos projectos em vista?

Alguns.

15 – Umas palavras para o site Novelas Nacionais…

O Novelas Nacionais representa a opinião da nossa sociedade. Vocês dão a palavra a quem gosta e aposta na ficção, gosto quando elogiam e valorizam o nosso trabalho, mas gosto também quando fazem o contrário, criticando, e isso dá-nos força e faz-nos querer melhorar cada vez mais.

Também são os meus heróis, porque deram importância ao meu trabalho e ao dos meus colegas, acima de tudo trataram-me como um actor normal como quero ser sempre.

Obrigado.

Obrigado nós Paulo. És uma grande força da natureza, um grande exemplo para todos nós! Foi um prazer ter-te como entrevistado. Que a vida te sorria sempre!


AS PERGUNTAS DOS FÃS

Tomas:
- Ficas nervoso quando te vês na televisão?


Fico muito (risos). Gosto de ver se fiz sempre bem as coisas, e quando vejo que não fiz, fico mesmo chateado.

Tiago:
- A todos os níveis, achas que as pessoas com deficiência devem ser tratadas como se fossem normais, ou seja, tanto serem "gozados" como o simples direito de conseguir chegar ao local de trabalho?


Claro que sim, acho que todos os portadores de deficiências que queiram ser tratados como “normais” têm que aceitar isso. Eu pessoalmente não me importo (risos).

Ricardo:
- Estás num núcleo com 2 actores veteranos, a Ângela Pinto e o Paulo Rocha, pedes-lhe conselhos?


Sim, sem dúvida. São dois grandes colegas que me têm ajudado imenso. Um muito obrigado a eles - mamã e mano.

João Pedro:
- Como surgiu o convite para participares na novela "Podia Acabar o Mundo"?


Não foi bem um convite, porque eu conheci o Nuno Santos e o Virgílio Castelo nos castings que tive que fazer, e aliás, fiz dois.

Andy:
- Apesar das dificuldades que a vida te trouxe, ainda consegues acreditar em Deus?


Sim, acho que tudo acontece por alguma razão, e se nasci assim, tenho que lutar assim.


RESPOSTA RÁPIDA

A palavra 'coitadinho'... Coitadinho uma mer… (risos).

A representação… é a minha vida.

Quando bebé, tinha cara de cera porque… Era lindo (modéstia à parte).

"Sonho-me Como Sou" porque... Nunca imaginei-me igual, gosto de mim como sou.


PASSADO, PRESENTE, FUTURO

Eu era... Eu sou... Eu serei... O Paulo Azevedo!

 

Comente a entrevista em:

http://novelasnacionais.com/forum/index.php/topic,262.msg125267.html#msg125267

Emanuel Caires

Actualizado em Sábado, 11 Abril 2009 16:57
 

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